O evento Ronda del Cims é o tipo de desafio que encaixa num projeto que pretendo continuar a fazer por muitos e longos anos. A minha ideia é fazer todos os anos um evento de Ultra Endurance de dureza extrema, onde possa usufruir de todas as privações e provações do Ultra Trail em ambiente de Montanha, lidar com os meus fantasmas e detonar para bem longe a minha zona de conforto. Ir a sítios onde dificilmente se consegue sem ser num evento desta natureza são os motivos que me levam a adorar esta modalidade desportiva de competição.

A minha intenção é aumentar todos os anos um pouco mais o grau de dificuldade do evento definido como o objetivo, no entanto tendo em conta que efetuei este ano a prova que é reconhecida como o evento mais duro de cem milhas em solo europeu e também a forma como fui obrigado a gerir a minha deslocação para Andorra, dificilmente conseguirei encontrar neste continente desafio de dureza semelhante.

Perfil

Quando vi pela primeira vez o site de Andorra Ultra Trail e em particular do evento Ronda del Cims, deparei-me com a seguinte descrição:

“Volta gigante a todo o Principado de Andorra, passando pelo ponto mais alto, o Pico de Comapedrosa a 2.942 metros de altitude, bordeando a fronteira.

São 170 quilómetros com 13500 metros de desnível positivo e 13500 de desnível negativo.

São 16 picos acima dos 2400 metros de altitude.

Altitude média da prova 2085 metros.

Tempo limite 62 horas.

Percurso por zonas panorâmicas de alta montanha alternando por zonas rochosas e glaciares, pradarias de alta montanha e bosques.”

Fiquei completamente rendido.

No entanto, o que me levou a ir procurar Ronda del Cims foi uma crónica que tive oportunidade de ler: o blog do Mestre Jorge Serrazina (http://jserrazina.blogspot.pt/2014/12/a-minha-passagem-por-andorra.html) e em particular uma citação de um atleta de reconhecidos méritos aqui da zona de Setúbal.

O Pedro Basso a propósito de Ronda del Cims diz o seguinte:

“Os seres humanos que terminam esta prova perdendo só uma noite são obrigatoriamente extraterrestres, os outros que terminam são Deuses do Trail”

Isto despertou toda a minha curiosidade e estava decidido qual seria o desafio de 2015. Depois da Freita em 2012, do UTAX em 2013, do MIUT e Ehunmilak em 2014 chegava o momento de enfrentar e disfrutar (dentro do possível) de uma prova em ambiente de alta montanha e de dureza extrema.

Ronda del Cims – A prova que é a volta a um País.

Quando projetei a minha deslocação para Andorra fiz na perspetiva de efetua-la tendo em conta ir de avião para Barcelona e depois de autobus para Andorra e teria duas noites de descanso antes da grande aventura.

Um imprevisto fez com que tivesse de trocar a viagem de avião por uma longa e desgastante viagem de 16 horas de automóvel precisamente na noite em que tinha planeado ser a minha primeira em solo Andorrano.

Desfrutei da excelente companhia do Nuno Gião e dos companheiros de viagem que tinham planeado efetuar a deslocação com o Nuno.

Eramos cinco no automóvel. Eu que ia participar em Ronda del Cims (170), que iria partir logo na sexta-feira às 7 horas da manhã, o Nuno Gião que iria participar na Ultra Mitic (112) que partiria na sexta mas às 24h00, o Nelson Marques que ia participar na Celestrail (83) e que partia no sábado e as meninas Sónia Tubal e Sandra Simões que iriam participar na Marathon (42).

A viagem fez-se dentro da medida do possível, encontramo-nos na estação de serviço de Palmela na quarta-feira às 23h00 e chegamos a Ordino às 15h00 de quinta-feira, precisamente 16 horas antes da partida de Ronda del Cims.

Cheguei a Andorra muito desanimado, estava extremamente cansado devido à direta no banco de trás do automóvel com três pessoas.

Sentia dores musculares, não tinha feito uma alimentação e hidratação adequadas ao longo destas 16 horas de viagem e estava algo nauseado.

Quando vejo as montanhas de Andorra fico extremamente preocupado. Não me achava com condições para fazer a prova.

Quando cheguei aos apartamentos Giberga em Ordino defini imediatamente a minha estratégia. Almoçar rapidamente para recuperar energias, ir levantar o meu dorsal, entregar o material que iria deixar na base de vida de Margineda e em Pas de la Casa, procurar um sítio onde pudesse adquirir uma refeição de junk food rica em hidratos de carbono, fazer uma sesta, jantar e preparar o meu material para a prova do dia seguinte e tentar dormir o tempo que restava até à partida.

Consegui efetuar este plano. Comi uma das piores refeições da minha vida em frente aos apartamentos Giberga, encontrei-me com o João Colaço com quem ia partilhar o apartamento, compramos o nosso jantar e dormi uma maravilhosa sesta de duas horas.

Acordei novo!

Jantamos uma dose reforçada de canelones e bastante pão. Preparei a minha mochila com todo o material obrigatório e a minha reserva alimentar e coloquei os meus planos de hidratação em prova e o perfil do evento em locais de fácil acesso.

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E dormi cinco horas.

Ia começar Ronda del Cims – A prova que é a volta a um País.

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Posto 1 – KM 21 – (1550D+/600D-) – Posto de Abastecimento de Sorteny, (Principal dificuldade – Collada de Ferreroles 2532mts)

A saída do centro de Ordino é acompanhada por uma música encantadora sempre sobre o som dos aplausos dos fantásticos aficionados do Trail que fazem questão em nos fazer sentir como heróis.

O grande desafio desta etapa de 21 quilómetros é a ascensão a Collada de Ferreroles aos 2532 metros.

A Vila de Ordino está localizada numa quota de 1280 metros de altitude, a saída da vila é feita por uma subida continuada até uma quota de 1620 metros sempre por caminhos de bosque e de uma subida dura até Camp del Remugat (1650 metros).

Aqui pode observar-se a Vila de Ordino, numa vista absolutamente fantástica, sigo por um caminho bastante empinado até os 1990 mts e desço por um trilho muito agradável até Ensegur (1835 mts).

A partir daqui começa o ataque a Ferreroles (2532mts) sempre com subidas fortes até ao Collado de Arenes. Aqui faço toda a crista de Arenes admirando a brutal vista de alta montanha.

Ferreroles
Ferreroles

No fim da Crista só temos 800 mts de subida até á Collada de Ferreroles, lá em baixo temos o Lago de Estanyó.

Lago de Estanyó
Lago de Estanyó

A descida de Ferreroles é muito rápida e técnica. É necessário seguir com prudência. Entramos num maravilhoso bosque, atravessamos um rio e falta somente uma pequena subida até ao primeiro posto de abastecimento no Refugi de Sorteny.

Fomos recebidos por uma multidão de Andorranos muito animados e animadores, somos novamente heróis em Sorteny.

Sorteny
Sorteny

Neste posto, procuro os alimentos que mais falta fazem nesta altura da prova e estabeleço uma estratégia de forma a poder cumprir o meu plano de alimentação em prova (o que nem sempre é viável). Recarrego os flasks com Golden Drink e procuro colocar mais à mão o reforço alimentar que vou necessitar para a próxima etapa (a melhor forma de encarar um evento de ultra endurance é procurar efetuar a prova por etapas).

Fui o 132º a chegar a este posto e o 54º do meu escalão. Cheguei às 10:38.

Principal Dificuldade: Sem nada a apontar.

Siga!

Posto 2 – KM 32 – (850D+/600D-) – Posto de Abastecimento de Arcalis, (Principal dificuldade Portella Rialp 2508mts)

A saída de Sorteny é efetuada por uma curta subida até Planell del Quer e por uma pequena descida para entrar no Valle de Rialp, seguimos por um rio e passamos pelo refúgio de montanha.

O desnível acentua-se progressivamente, até chegarmos ao ponto mais alto da etapa Portella de Rialp.

Ao chegar aproveito para recuperar e observar o brutal e emocionante cenário de alta montanha. É um privilégio encarar um desafio deste nível.

Vou começar a descer. São 500 mts de descida até Estany Esbalçat (2208 mts). Sigo por um caminho plano e começo a subir para o fim da etapa, Coma d’Arcalis.

Estany Esbalçat
Estany Esbalçat

Chegado ao posto, tenho o prazer de encontrar o meu companheiro Hélder Pinto, a única cara conhecida que vi ao longo deste brutal desafio.

Neste posto, procuro consumir um pouco mais de HC porque não estava a conseguir manter o importe alimentar que tinha planeado com o Nuno Mendes.

Hidrato-me e alimento-me tranquilamente. O desafio ia ficar mais complicado daqui para a frente. O dia começava a aquecer, a montanha ia ficando mais despida de vegetação e as placas de gelo começavam a surgir no horizonte.

Perdi alguns lugares na classificação, fui o 140º a chegar a este posto e o 56º do meu escalão, Cheguei às 13:37.

Principal Dificuldade: O calor começava a fazer-se sentir, muito desnível positivo em tão poucos quilómetros (K32 com 2400D+).

Siga!

Posto 3 – KM 44 – (800D+/1000D-) – Posto de Abastecimento de Pla Estany, (Principal dificuldade Clot Cavalli 2612mts e Bretxa D’Arcalis 2714mts)

Começo a reformular o meu planeamento, tinha 20% da prova concluída, seguramente a parte menos difícil do evento, apesar do imenso D+ em tão poucos quilómetros.

Daqui para a frente teria que lidar com o brutal desnível negativo técnico que tantas mossas iria provocar no meu condicionamento físico.

De saída de Estany, conseguimos ver o Pico de Cataperdís onde teria de passar dentro em pouco, seguido pelas pistas de esqui de Estany até Bretxa d’Arcalís.

Pla Estany
Pla Estany

Os pendentes acentuam-se fortemente, os trilhos tornam-se muito técnicos e empedrados e depois de uma dura subida (estou a reservar o termo de Demolidora Subida, porque até aqui apesar de constatar a dureza das subidas procuro reservar-me nos adjetivos. Mas em reverência a Andorra e as suas Montanhas, devo dizer que o meu nível de sofrimento e de resiliência foi completamente detonado neste evento. Há Ultra Trail e há Andorra Ultra Trail). Chegamos a Angonella (2300 mts), daqui até Pic del Clot del Cavall (2612mts) a prova segue pela crista da montanha.

Pic del Clot del Cavall
Pic del Clot del Cavall

Teria de ter uma grande capacidade de expressão literária para poder explicar a vista magnífica deste local. A natureza está a recarregar-me as baterias e sinto o coração cheio.

Começamos uma descida no mínimo surreal (ainda não sabia eu o que era uma descida surreal) quase 700 metros D- em menos de 2km em caminho de sinuoso e empedrado.

Entramos no bosque e chegamos a Bordas dels Prats Nous, caminho ótimo para correr e disfrutar. Já se consegue ver o refúgio de Joan Canut-Pla d l’Estany.

Joan Canut-Pla d l’Estany
Joan Canut-Pla d l’Estany

Continuo a perder lugares na classificação, fui o 141º a chegar a este posto e mantenho o 56º do meu escalão, Cheguei às 16:56h.

Principal Dificuldade: As descidas cada vez mais longas e técnicas, e alguma dificuldade em manter o meu plano de alimentação e equilíbrio mineral. Transpiro imenso. Mas sinto-me forte.

Encaro de frente uma das grandes dificuldades da prova, a Montanha Sagrada Andorrana, Cume de Comapedrosa (2942mts). A sua face norte é medonha, há um bloco de gelo que a percorre em quase toda a sua totalidade e o vento neste vale é avassalador.

Siga!

Posto 4 – KM 44 – (900D+/700D-) – Posto de Abastecimento de Comapedrosa, (Principal dificuldade Pic del Comapedrosa 2942mts)

Nessa altura é quando começa Ronda del Cims, a ascensão a Comapedrosa e a descida técnica iam provocar as primeiras baixas no pelotão.

Refugio de Comapedrosa
Refugio de Comapedrosa

Seriam 2kms e 1000 mts de desnível positivo. Brutalidade pura.

Do outro lado da montanha esperava-me uma dura e inclinada descida sempre serpenteando pela montanha.

A subida inicia-se num caminho com ervas e acentua-se progressivamente até entrar em pedra solta mas pesada. Muito rugoso, os cuidados tem que ser redobrados. A subida demora precisamente duas horas para fazer estes dois quilómetros.

Sempre, Sempre, Sempre a subir em direção ao Céu.

Cume de Comapedrosa
Cume de Comapedrosa

Para atingirmos o pequeno porto de Collada del forat de Malhiverns, tivemos que subir com as mãos no chão, não havia hipóteses de fazê-lo de outra maneira. Ao chegar a este local dá para respirar um pouco melhor e disfrutar um pouco da vista.

Faltam mais 10 minutos de subida muito técnica para chegar ao Topo de Andorra. Olho para cima e arrepio-me, O Homem da Gaita de Fole olha para mim e começa a tocar a acompanhar os meus últimos minutos, aos três mil metros sou recebido epicamente ao som de música. Emociono-me.

Ao chegar ao topo, sou saudado como “O Português”, sou recebido por um emigrante vestido com a camisola de Portugal.

Dá-me um forte abraço e oferece-me tudo o que tem (vinho, água e bolachas). Tiramos uma foto enrolados numa grande bandeira de Portugal. Amavelmente recuso as ofertas (é proibido por regulamento receber assistência fora dos postos de abastecimento).

Despeço-me com um forte abraço e quando inicio a brutal (agora já posso usar adjetivos fortes) descida, oiço o seguinte: “João! Tens uns tomates do tamanho do Mundo”

Viva Portugal!

Com este acolhimento, a descida faz-se com muito ânimo e chego rapidamente ao refúgio de Comapedrosa.

Continuo a perder lugares na classificação, sou o 149º a chegar a este posto e perco também lugares no meu escalão, sou agora o 59º do meu escalão. Cheguei às 19:52h.

Principal Dificuldade: A dura subida foi demolidora, a descida técnica proporcionou a primeira queda sem consequências graves.

Sinto-me cada vez mais forte e convencido que vou chegar ao fim.

Siga!

Posto 5 – KM 60 – (500D+/700D-) – Posto de Abastecimento de Botella, (Principal dificuldade Portela de Sanfons 2592mts)

A partir deste ponto faltam precisamente 110 quilómetros para o fim da prova. Há neste momento uma forte tendência para o desnível ser mais negativo do que positivo. Se por um lado pode ser considerado uma boa nova, à partida será mais fácil descer do que subir, mas tal máxima não se aplica a Andorra e às suas montanhas.

Descer em Andorra é massacrante, as descidas são brutais, há necessidade de controlar bem a sua tecnicidade e fazer-se uma boa gestão de esforço. Não há hipóteses de destravar. Um passo mal calculado pode proporcionar uma queda de consequências desastrosas.

Portela de Sanfons
Portela de Sanfons

A saída do posto de abastecimento de Comapedrosa é efetuada por uma grande rota pedestre (GRP) num percurso bastante plano e propicio à corrida, no entanto pouco depois retomamos por um pendente bastante empinado por um trilho muito empedrado até atingir o ponto mais alto desta etapa e percorrer em corrida toda a espetacular crista de Portella de Sanfons (2592 mts).

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A crista, a determinada altura, segue por um pendente descendente de extraordinária beleza, acentua-se pouco depois quando começamos a bordear o Pic Negre e atravessar o Coll Petit, pouco depois estamos na crista de Port de Cabus (2302 mts).

Aqui inicia-se uma descida de 3km feita por prados antes de chegar a Setúria e iniciar a subida pelas pistas de esqui até ao abastecimento de Coll de la Botella.

Coll de la Botella
Coll de la Botella

Tenho precisamente 60 quilómetros percorridos com 4600 mts de desnível positivo e 3600 mts de desnível negativo.

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Cheguei às 22:22h e é noite cerrada. A minha primeira noite neste fantástico cenário de Alta Montanha de dureza extrema.

Principal Dificuldade: Não tenho nada a assinalar. Sinto-me cada vez mais forte e confiante. É fato que já tenho muitos quilómetros percorridos e estou cada vez mais perto da barreira psicológica dos três dígitos (100). Muitos desafios foram deixados para trás com sucesso, sem quedas ou desequilíbrios minerais e alimentares a assinalar (em ultra endurance é muito importante ter sempre algo no estomago. O nosso aparelho digestivo deve estar sempre em funcionamento mesmo que sobre poucas quantidades de alimento. O organismo tem que entender que não pode privar a circulação sanguínea de uma zona vital da nossa base de vida. Em alta montanha e no ultra endurance, é fundamental comer de forma sustentada para que existam reservas permanentes de glicogénio. Sem uma boa e sustentada alimentação não é possível chegar ao fim num desafio de uma envergadura monumental como é Roda del Cims).

A próxima etapa será mortal. Seguramente muitos atletas ficaram na base de vida de Margineda ao quilómetro 73. Há uma monumental descida desde Bony de la Pica até Margineda que deixarão incapacitados todos aqueles que venham com o seu condicionamento físico comprometido.

Era o meu feeling.

Sinto-me Forte e Confiante. Recuperei 18 lugares na classificação geral e sou o 124º classificado e 47º do meu escalão. Recuperei 12 lugares na categoria.

Siga!

Posto 6 – KM 73 – (450D+/1400D-) – Posto de Abastecimento e Base de Vida de Margineda, (Principal dificuldade Bony de la Pica 2406 mts e descida a Margineda 1400 D-)

A saída de Coll de Botella (2047 mts) é feita por um GRP que percorre um bosque Deste ponto podemos observar os cumes que iremos percorrer dentro de algumas horas (os que lá conseguirem chegar). Atravesso as pistas de Pal e entro novamente num bosque antes de chegar à magnifica Colada de Montaner (2084mts) e correr pela fronteira Espano-Andorrana.

Saio de Montaner por um GRP do percurso da Celestrail (a terceira maior distância 83k de Andorra Ultra Trail) e entramos no itinerário da Ultra Mitic (segunda maior distancia 112k de Andorra Ultra Trail) atacando, neste momento, uma severa subida pelo bosque. Ainda consigo admirar, com alguma dificuldade devido à noite, as Gamuzas e a sua destreza excecional sobre os pendentes vertiginosos. A vista é de cortar a respiração.

Chego a Bony de la Pica. A descida é muito delicada e extremamente técnica. A destreza é fundamental. Sou prudente e aproveito para relaxar de forma a abordar a detonadora descida que irá seguir-se. Chego a Puerto de Comes (2228mts).

Inicio a descida por trilho muito estreito com muitas raízes até chegar a um bosque com muita erva onde posso correr sem preocupações e disfrutar de uma noite amena. Atravesso a aldeia de Aixàs onde só vive uma família.

Em Aixàs (1530mts) faço os primeiros 50 metros de asfalto (Trail em estado puro é em Andorra) antes de iniciar a subida para Coll Jovell (1582 mts).

Aqui disfruto de uma magnífica vista sobre Andorra La Vella e Escaldes. Volto a entrar num bosque. O trilho estreita, o bosque torna-se denso e a descida acentua-se. Começa a demolidora descida de 6kms e mais de 1000 mts de desnível negativo.

Margineda
Margineda

Chego a La Margineda às 2:45h da madrugada, cenário de guerra no pavilhão base de vida. Imensas pessoas deitadas a dormir, a receberem tratamento médico e muitos a ponderar a desistência.

Começou Ronda del Cims!

A primeira preocupação neste posto foi precisamente não cometer os mesmos erros cometidos no Pais Basco durante o notável evento que é Ehunmilak Ultra Trail.

Vou mudar de roupa e trocar de calçado (La Sportiva Ultra Raptor pelas La Sportiva Bushido), colocar algo nas assaduras e hidratar os pés. Tomar um duche rápido.

Depois deste procedimento efetuado, fiz uma avaliação ao meu plano de hidratação e alimentação em prova. A estimativa era que iria perder 23000 calorias durante este mega evento. Constatei que não estava a fazer uma correta reposição calórica e que isso iria seguramente ter implicações no meu rendimento mais adiante. Não há milagres no Ultra Endurance.

Começo a introduzir Coca-Cola no meu regime alimentar. No meu caso não é bom sinal. Este refrigerante só é tolerado por mim quando começo a ter dificuldade em alimentar-me.

Obriguei-me a comer massa, arroz e tomate. Tomo dois cafés.

Estou preparado para seguir. Sinto-me renovado com a troca de roupa e o banho.

Sou agora 108º da geral e recuperei 16 lugares na classificação geral. No escalão, recuperei 4 posições e sou o 43º.

Siga!

Posto 7 – KM 86 – (1100D+/350D-) – Posto de Abastecimento Coma Bela, (Principal dificuldade Cortals Manyat 1650mts).

Saio de Margineda por caminho de asfalto. Sinto-me bem, forte e confiante, leve e com uma frescura que não consigo explicar. Sinto-me feliz e privilegiado por poder estar a viver esta aventura.

Passo a magnifica ponte românica de Margineda e entro em trilho. Inicio uma longa e severa subida por bosque a caminho de Costa Seda. Somos 7 em fila indiana, sou o sexto e desligo o frontal.

Logo no início da noite fiquei sem o meu primeiro frontal. Nem sequer ligou. Comecei a usar o de reserva e começo já no final da madrugada a planear a minha segunda noite.

Iniciamos a descida para o Pueblo de Certés. Os meus companheiros de subida arreiam e aproveito para destravar na descida para este simpático povoado. Daqui a pouco será dia.

Cortals Manyat
Cortals Manyat

Passado o povoado, entro em trilho bastante estreito. Passo por baixo de uma cascata magnífica. Chego a Llumaneres (1280mts) e tenho 80 quilómetros percorridos. Tenho quase 50% do percurso concluído.

Chego a Coma Bella (1390mts) já ao raiar do dia. Vinha num ritmo brutal (má gestão da minha prova) e sentia-me infernal. Super motivado e um herói (será outro ponto a corrigir. Não há heróis!).

Coma Bella
Coma Bella

Estava com bastante fome. Felizmente consigo comer em quantidade (razoável sem comprometer o meu processo de digestão).

Arroz, massa, atum, presunto, chouriço, pão, tomate e fruta (melão e melancia estupendos).

Cheguei às 7:04h.

Continuo a conquistar imensos lugares na classificação, sou agora 74º da geral e recuperei 34 lugares na classificação geral. No escalão recuperei 17 posições e sou o 26º.

Desde o primeiro até ao sétimo abastecimento, de Coma Bela, conquistei 60 lugares da classificação geral e 30 do meu escalão.

Siga!

Posto 8 – KM 105 – (1500D+/250D-) – Posto de Abastecimento Claror, (Principal dificuldade Pic Negre 2645 mts, Coll del Bou Mort 2501 mts).

A saída de Coma Bella é efetuada por uma Grande Rota Pedestre por dentro de um bosque, o desnível é muito grande e o caminho muito reto, a subida é muito severa. Chego aos 2000 mts de altitude e ao parque temático Naturlandia, o pendente suavizasse e sigo por um estradão florestal até Refugi de Roca de Pimes (2165 mts)

Sinto-me muito forte. Estou bem hidratado e alimentei-me bem. Passei vários atletas completamente extenuados durante a subida e estou a correr com facilidade e sem “dores relevantes”. Sinto precisamente neste momento que estou a comprometer a minha gestão de prova. Irei pagar esta loucura mais adiante. É fatal como o destino.

Ataco mais 500 mts de desnível positivo e constato que todos teremos que lidar, durante todo o dia, com um dos mais implacáveis matadores da Montanha: o Calor.

Começo a ascensão ao Pic Negre, sigo por várias cristas e estradões e sou literalmente atacado por enxames de moscas que não me largam. O calor começa a apertar e começo a sentir-me cada vez com mais cansado. Terei que reforçar as doses de minerais no abastecimento e hidratar-me convenientemente. Irei precisar de doces, shots de Mel.

Pic Negre
Pic Negre

Entro na Collada de la Caulla, cujo trilho entra em bosque (sombra) e que irei abandonar pouco antes de atingir o Refugi de Prat de Primer (2240 mts).

Reforço a ingestão de líquidos, alimento-me com sólidos, procuro sódio e glícidos, procuro a cruz vermelha para tentar tratar de várias bolhas que se vão formando nos meus pés. Sigo confiante para Coll del Bou Mort (2501 mts).

Coll del Bou Mort
Coll del Bou Mort

Chego ao refúgio de Claror.

Tenho 105 quilómetros percorridos e 7650 metros de desnível positivo com 5600 de desnível negativo são 11:58h e estou com 29 horas de prova.

Continuo a recuperar lugares na classificação geral. Sou agora o 54º classificado da geral e recuperei 20 lugares e sou o 19º do escalão. Recuperei 7 lugares.

O calor começa a ser insuportável e é certo como o destino que a martelada que está destinada à minha pessoa irá acontecer mais cedo ou mais tarde. Começo a antecipar e a ponderar este cenário e procuro definir uma estratégia.

Siga!

Posto 9 – KM 116 – (750D+/400D-) – Posto de Abastecimento L’Illa, (Principal dificuldade Collada Maiana 2424 mts, Estall Serrer 2501 mts).

A saída de Claror significa, para os Andorranos, que vamos entrar no mais belo trilho de Montanha. Percorremos um vale magnífico, atravessamos um rio com um caudal fortíssimo, devido ao degelo que é proporcionado pelas inúmeras placas de gelo e neve que tivemos oportunidade de atravessar durante largos quilómetros (há de tudo em Ronda del Cims) e chegamos à estância de la Nou.

Pequena descida, novo vale de cortar a respiração e chegamos ao refúgio de Perafita (2200 mts).

Iniciamos uma subida severa pelo bosque. No fim deste pendente podemos alargar a passada e correr pela Collada de Maiana (2424 mts).

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À nossa frente encontramos o Valle del Madriu, património da humanidade da UNESCO. Começo a descer em direção ao bosque, alcanço rapidamente o fundo do vale que é um sítio magnífico. Percorro um caminho com muitas sombras o que minimiza os efeitos do calor. Chego a Estall Serrer (2424 mts) e pouco depois ao Refugi de L’Illa e ao abastecimento.

Valle del Madriu
Valle del Madriu

Chego a este ponto bastante cansado. O calor e a falta de vento associados ao dispêndio de energia, que apliquei quando raiou o dia, fazem com que me sinta bastante fraco.

Tenho alguma dificuldade em alimentar-me e o fato de dentro do refúgio terem acendido uma fogueira para aquecer sopa fez com que tivesse alguma dificuldade em respirar devido à inalação de fumos.

Sentei-me pela primeira vez depois de 116 quilómetros e mais de 32 horas de prova.

Cheguei às 15:17h e mantenho os mesmos lugares nas classificações geral e por escalão.

Siga!

Posto 10 – KM 130 – (1050D+/1050D-) – Posto de Vida e Abastecimento Pas de La Casa, (Principal dificuldade Port de Vallcivera 2540 mts, Portella Blanca 2516 mts, Coll dels Isards 2552 mts).

Nesta etapa inicia-se o calvário que vai acompanhar-me praticamente até final da prova. Irei sofrer após a descida de Coll dels Isards uma quebra física abrupta que irá potenciar-se durante a noite.

A segunda noite será de um sofrimento inarrável, pois terei que gerir as duas noites sem dormir e também o pouco descanso que tive antes do evento (dormi 5 horas), devido à cansativa viagem de automóvel feita durante a noite de quarta-feira e que durou 16 horas.

A saída do abastecimento realiza-se atacando de imediato Port de Vallcivera (2540 mts) e logo seguido de uma descida com um forte pendente rochoso, extremamente técnico e demolidor para os quadricípites.

Ao quilómetro 121 deixo a Cabana Esparvers (2046 mts) e a Grande Rota 11 e inicio o caminho pela GR 107. Sigo para noroeste pelo fundo do Valle de Engaìt.

Chego a Portella Blanca (2516 mts). Neste preciso ponto alcanço a fronteira com três países: Espanha, França e Andorra. Seguimos para norte para o início da ascensão a Coll dels Isards (2552mts). Começa a escurecer.

A ascensão a este ponto é desumana, o pendente é fortíssimo e detonador. Sobre um escarpado rochoso e gelo. É desumano. Sinto-me completamente Fxxxxx (não há outra forma de expressão possível). Começo a considerar que a prova é um tremendo gigante Adamastor! Procuro seguir em frente.

Chego ao cume, a vista é magnífica, mas preocupa-me o tipo de descida que vou encontrar na outra face. Se for muito abrupta e técnica, irei ter grandes problemas. Sinto as pernas a estoirar e perdi flexibilidade e mobilidade. Os joelhos estão destruídos e os meus tornozelos parecem bolas de golf. Tenho os pés extremamente inchados e estou constantemente a golpeá-los devido aos diversos pontapés involuntários que dou nas pedras salientes.

Já caí de forma aparatosa e deixei de poder contar com o meu Garmin. Estou a gerir a prova com base na experiência.

E vejo a descida.

De todos os péssimos cenários que estava mentalizado para fazer, este superou tudo o que era possível.

Descida fortíssima e severa com declive muito acentuado e muitíssimo técnica.

Coll dels Isards
Coll dels Isards

Foi feita em completa agonia, cheio de dores em todos os lados, não tenho explicação. Temo que as pernas percam a sua mobilidade a qualquer momento.

Consigo ultrapassar mais esta provação. Já consigo ver Pas de La Casa. Tenho imensas dificuldades em progredir.

Pas de la Casa
Pas de la Casa

Entro na cidade e sou saudado por centenas de pessoas. A descida é interminável e sinto-me na obrigação de fazê-la a correr, honrando desta forma todos aqueles que vem ao meu encontro para saudar-me como se de um herói me tratasse. Emociono-me muito.

Entro no pavilhão de Pas de La Casa, posto de abastecimento e de vida sobre fortes aplausos e gritos de todos aqueles que estavam no pavilhão.

Sinto-me esgotado física e mentalmente. Procuro decidir o que fazer. Tomo banho ou não? Será que devo sentar-me? Recebo uma massagem? Troco de roupa ou alimento-me?

Começo a ter algumas dificuldades em raciocinar e planear os meus próximos passos. Curiosamente começo a fazer contas e constato que irei ter que enfrentar outra longa, dura e interminável noite. Dureza extrema.

Lembro-me que só tenho um frontal operacional e com pilhas muito gastas devido à primeira noite. Começo a falar com os atletas que iam desistir para me cederem as pilhas que já não vão necessitar. Consigo arranjar 4, já gastas. Do mal o menor. Não queria ficar sem luz em Alta Montanha e muito provavelmente a conviver com raciocínio deficitário e alucinações.

Começo a trocar de roupa. Sento-me. Estou completamente assado nas virilhas. Reforço o tratamento nessa zona. Procuro um voluntário para saber se posso receber tratamento para os pés e uma massagem. Diz-me que tenho que entrar em lista de espera. Não contemplo essa possibilidade e inicio um processo de auto massagem com recurso a uma pomada de aquecimento que foi facultada por um fisiatra.

Levanto-me com muita dificuldade e começo a encaminhar-me para a porta de saída onde estava o abastecimento.

Procuro comer o máximo que consigo. Peço duas sopas, atum com massa e azeitonas. Só consigo beber Coca-Cola. Peço fruta e reforço a ingestão de açúcares com o mel.

Vejo a porta de saída. Reforço a coragem com a minha máxima “o impossível está a um passo da minha superação”. Ordino é o meu objetivo, a minha meta e não contemplo qualquer outra hipótese que não seja ser Finisher em Andorra.

Recuperei 5 lugares a classificação geral, sou o 52º Classificado na prova mais dura de Montanha da Europa. Recuperei 3 lugares no escalão, sou agora o 16º classificado.

Isto termina na Meta.

Siga!

Posto 11 – KM 143 – (800D+/400D-) – Posto de Abastecimento Inclés, (Principal dificuldade Pas de les Vaques 2575 mts, Refugi Siscaró 2150 mts).

Que frio ao sair do pavilhão!

Começo esta jornada da pior forma, teria que descer 200 mts de D- em alcatrão. Impossível correr ou sequer esboçar um trote que ainda ameacei tentar por algumas vezes.

Estava com muita congestão nasal. Ronda del Cims disputa-se a uma altitude média de 2048 mts e isso causa alguns constrangimentos de nível respiratório.

Chego perto da fronteira Franco-Andorrana e sigo por trilho até Rebaixante del Mai. Começo a subir e sinto-me bem melhor. Consigo trotear.

Entro no Valle do Rio de San José e ataco um desnível fortíssimo até aos 2565 metros: nem acredito que consigo subir desta forma! Não há nada mais forte do que crer em nós próprios e nunca conceber a possibilidade de interromper a jornada sem dar tudo por tudo.

Deixar lá tudo.

Chego a Pas de les Vaques (2575 mts), descida forte que procuro fazer com todo o cuidado. Chego ao lago de Siscaró, volto a descer e atinjo o refúgio de Siscaró (2150 mts).

Já é noite, tenho o frontal na potência mínima, procuro ter um raciocínio lógico, sinto-me muito cansado. Entro num bosque por trilho estreito e chego ao vale de Inclés onde tenho abastecimento.

São 23:21h, percorri 143 quilómetros com 10.250 de desnível positivo e 8.050 de desnível negativo. Recuperei dois lugares na classificação geral e sou agora 50º classificado e perdi dois lugares na classificação por escalão, sou 18º classificado.

Estou extenuado! Além do cansaço extremo, sinto-me com muitas dificuldades de concentração e de raciocínio. Não sinto fome. Procuro fruta e tomo uma sopa. Receio ficar às escuras na montanha e procuro por alguém que vá sair de forma a ter companhia.

Siga!

Posto 12 – KM 143 – (900D+/500D-) – Posto de Abastecimento Comes des Jan, (Principal dificuldade Refugi de Cabana Sorda 2312 mts, Cresta de Cabana Sorda 2657 mts).

Modo Zombi!

Não tenho grandes memórias de ter saído deste posto. Mas o fato é que sai.

Vivi durante este período num modo virtual de 2 dimensões onde o raciocino primou pela ausência total. Tenho algumas memórias de ter falado comigo, penso que tive uma alteração de personalidade durante algumas horas.

Recordo-me de estar no fundo de um vale rodeado de montanhas por todo o lado e saber que teria que subir por algum lugar. Mas esse processo não parecia ter fim, bordeei montanhas, cai várias vezes e destrui os pés.

Via a dobrar. Parecia que as marcações que caiam do céu para a terra. Ouvia pessoas a falar mas nunca vi ninguém.

Cresta de Cabana Sorda
Cresta de Cabana Sorda

Recordo-me de chegar à Crista de Cabana Sorda e saber que do outro lado teria a longa descida para Ordino. Lembrei-me de ter visto um vídeo em que o Martinez, Diretor da prova, fazia referência ao fato de que quem chegasse àquele ponto sentir-se-ia o Rei do Mundo.

Mas senti-me sim completamente fxxxxx!!

Não faço a mínima ideia de como cheguei ao penúltimo posto de abastecimento.

Só que cheguei!

São 6:08h, estou em prova à 46 horas e percorri 156 quilómetros e quase 27000 metros de desnível acumulado de dureza extrema. Vou ser Finisher de Ronda del Cims.

Posto 13 – KM 156 – (700D+/500D-) – Posto de Abastecimento Sorteny, (Principal dificuldade Collada dels Meners 2719 mts).

Foi com grande felicidade que vi Sorteny, o primeiro e ultimo posto de abastecimento de Ronda del Cims Estava completamente detonado, os movimentos das minhas pernas tinham perdido amplitude, estava muito assado, os pés muitíssimo mal tratados das pancadas e de algumas bolhas que se foram formando.

Collada dels Meners
Collada dels Meners

A parte final de Ronda del Cims é encantadora. À semelhança de toda a prova é de uma beleza indiscritível. Andorra deve ser um dos sítios mais lindos do mundo.

O grande problema desta etapa é que se pode correr muito e bem. Não há razão para que tal não se faça. Praticamente não há desnível positivo e o que há de negativo é bastante ligeiro.

O problema é que um individuo vem completamente extenuado e cheio de lesões e mazelas.

Comecei com um trote ligeiro até que fui ultrapassado por um francês que vinha completamente alucinado e eufórico.

Comecei a imaginar que seria ultrapassado por mais atletas e insisti num trote mais rápido até que comecei a correr.

Ultrapassei vários atletas que presumo serem das distâncias mais curtas e ainda andei picado com um francês, que vindo de trás pensou que teria hipótese de conquistar o meu lugar.

Ordino
Ordino

Terminei Ronda del Cims a correr bem.

Cheguei a Ordino às 7:53h depois de 48 horas de prova, que poderiam ter sido um pouco menos se tivesse, em determinados momentos, feito uma melhor gestão de esforço.

Arrivées 5302

Para concluir com sucesso este desafio foi fundamental contar com o apoio de duas pessoas que primam pela excelência:

O meu querido Amigo Fábio Miguel Dias, formado em Medicina Tradicional Chinesa. O seu entusiasmo na procura da excelência do tratamento e suplementação para atletas faz com que eu seja mais saudável e disponível fisicamente. É com ele que encontro a ajuda necessária para todos os problemas físicos e de recuperação.

E o Nuno Mendes, especialista na área de nutrição. Com a sua ajuda consegui perder 5kg em 30 dias o que foi fundamental pois devido a uma lesão, só tive três meses para preparar este mega evento.

Aos dois, deixo um forte abraço e todo o meu reconhecimento.

cronometragem

Ronda del Cims – K170 – 13500 D+ 27000 de desnível acumulado.
357 Participantes 52 da geral, 19 do escalão entre 147 atletas.
162 Finalistas – 195 Desistentes

FINISHER EM ANDORRA

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9 pensamentos sobre “A Grande Aventura em Ronda del Cims

  1. Grande João, só quem lá esteve tem a verdadeira noção das dificuldades que esta prova apresenta e do verdadeiro feito que é um comum mortal poder terminá-la, e uns dias depois ainda ter memória para fazer este relato. Mais uma vez muitos parabéns e desculpa a falha de ter falhado a tua chegada a Ordino, mas estava convencido que ias fazer mais uma horita! Grande abraço e venha a próxima 😉

  2. Sou um amante das corridas em trilhos, mas, enquanto praticante, não sou adepto de provas de extrema dureza – ou seja, por exemplo, adoro ver boxe e nunca fui pugilista, nem sequer ponderei ser. Todavia, devo dizer que gosto imenso de acompanhar estas provas em que há portugueses envolvidos, sobretudo quando são meus amigos, (o que faço regularmente e apaixonadamente) e reconheço muito valor a todos os atletas que se superam e são Finalistas destas provas.

    Desta excelente crónica do João Mota, a quem deixo, desde já os duplos parabéns, sobretudo pela finalização desta duríssima prova, mas também pelo belo e excelente relato que nos ofertou, e de onde retenho duas passagens que achei curiosas, aparentemente antagónicas, mas complementam-se e, uma, em parte, justifica a outra e vice-versa:

    “…A ascensão a este ponto é desumana, o pendente é fortíssimo e detonador. Sobre um escarpado rochoso e gelo. É desumano. Sinto-me completamente Fxxxxx (não há outra forma de expressão possível). Começo a considerar que a prova é um tremendo gigante Adamastor! Procuro seguir em frente.
    Chego ao cume, a vista é magnífica, mas preocupa-me o tipo de descida que vou encontrar na outra face. Se for muito abrupta e técnica, irei ter grandes problemas. Sinto as pernas a estoirar e perdi flexibilidade e mobilidade. Os joelhos estão destruídos e os meus tornozelos parecem bolas de golf. Tenho os pés extremamente inchados e estou constantemente a golpeá-los devido aos diversos pontapés involuntários que dou nas pedras salientes.
    Já caí de forma aparatosa e deixei de poder contar com o meu Garmin. Estou a gerir a prova com base na experiência.
    E vejo a descida.
    De todos os péssimos cenários que estava mentalizado para fazer, este superou tudo o que era possível.
    Foi feita em completa agonia, cheio de dores em todos os lados, não tenho explicação. Temo que as pernas percam a sua mobilidade a qualquer momento.”

    “…Faltam mais 10 minutos de subida muito técnica para chegar ao Topo de Andorra. Olho para cima e arrepio-me, O Homem da Gaita de Fole olha para mim e começa a tocar a acompanhar os meus últimos minutos, aos três mil metros sou recebido epicamente ao som de música. Emociono-me.
    Ao chegar ao topo, sou saudado como “O Português”, sou recebido por um emigrante vestido com a camisola de Portugal.
    Dá-me um forte abraço e oferece-me tudo o que tem (vinho, água e bolachas). Tiramos uma foto enrolados numa grande bandeira de Portugal. Amavelmente recuso as ofertas (é proibido por regulamento receber assistência fora dos postos de abastecimento).
    Despeço-me com um forte abraço e quando inicio a brutal (agora já posso usar adjetivos fortes) descida, oiço o seguinte: “João! Tens uns tomates do tamanho do Mundo”
    Viva Portugal!”

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