Permitam-me que cite Astérix , o Gaulês a este respeito : “Estes Espanhóis devem estar loucos…”

Basicamente este foi o meu pensamento em 80% do recorrido, tudo porque em determinada altura tive a forte convicção que eles queriam acabar comigo.

A coisa até começou bem, a partida foi não competitiva durante aproximadamente 6 quilómetros. O objetivo da organização era uma saída em segurança da cidade de Sevilha.

Doñana Trail 2013-37

A frente da corrida era controlada por um carro da organização que não dava azo a grandes euforias, dez ou doze quilómetros hora e estava bom. O objetivo era chegar á ponte de ferro e dai para a frente seria cada um por si.

Doñana Trail 2013-170

Esta prova tem uma altimetria praticamente nula para quem esta acostumado a correr em montanha, é praticamente toda percorrida em estradão, não há caminhada e é para CORRER.

Altimetria

O problema é que são setenta e três quilómetros.

Enfim! Chegados à ponte de ferro o Speaker dá ordem de largada… loucura total.

Eu que por acaso até ia no grupo da frente, rapidamente vejo uma vintena deles a desaparecerem rapidamente a mais de 20km/h (eu por acaso até ia espevitado a 15 ou 16 ou mais 😉 )

Doñana Trail 2013-200

Aqui foi quando o Asterix veio ao meu pensamento pela primeira vez “Que loucos estes espanhóis…” . Que andamento brutal.

O pior é que eu também acabaria (já estava) por ser contaminado.

O objetivo era chegar a El Rocio, um povoado que fica a sul de Espanha (Andaluzia) em Almonte na província de Huelva, que é terra de peregrinação em honra à virgem de El Rocio.

El_Rocio_02

Seria seguro que durante o recorrido íamos passar por muitos caminheiros em peregrinação para este local.

Passado pouco da ponte de ferro, entramos em estradão e foi assim até aos cinquenta quilómetros.

Estradões largos, sempre a subir e a descer a fazer lembrar um carrossel, muito andamento e muitos BTTistas.

Doñana Trail 2013-259

Estes amigos das duas rodas são de fato extraordinários, ao contrário daqui em Portugal, que fingem que somos seres estranhos que “tentam-pedalar-sem-uma-bike-entre-as-pernas”, lá em Espanha não se cansam de motivar e dar força a quem vai a correr.

Doñana Trail 2013-506

É reconhecimento de bravura.

Estes tipos tantas vezes chamaram-me de “Campeon” tantas vezes me deram “Ânimo, Ânimo” e chamaram-me de “Maquina” que cheguem ao abastecimento dos K42 com 3h05m de prova (em comparação, tirei 30m ao meu melhor tempo na Maratona de Estrada).

Mas já sabia que ia pagar a fatura mais à frente.

O calor Andaluz começava a apertar, o Sol começava a ficar bem mais forte, a frescura no ar ia diminuído, mas os estradões áridos e sem sombra continuavam intermináveis, longas rectas sem sombra.

E os BTTistas continuavam a passar às dezenas e sempre a darem força e ânimo a todos os atletas.

“Hombre, ânimo és un Campeon!”

E fui na conversa do bandido. Apesar de estar a hidratar-me bem, foi a primeira vez que estive numa prova de Trail em que o ritmo era 100% de corrida. Não dava para fazer gestão de esforço. Como eu queria que aparecesse uma subida demolidora como estamos habituados a encontrar em Portugal.

Mas ali não havia. Cheguei ao abastecimento dos K50 com dificuldade, sinais de desidratação e com cãibras em ambas as pernas, centradas especialmente na zona dos gêmeos.

Parei pela primeira vez para abastecer de isotónico e para ingerir sais.

Por opção deixei de correr com relógio. O meu relógio é o meu corpo. Controlo os km pelos abastecimentos. Levo relógio no bolso só mesmo para ver as horas (o meu Garmin não resiste a mais de 6 horas e não vale a pena insistir com ele).

Depois deste abastecimento, a minha condição piorou substancialmente, a sombra surgiu, pois estavamos em pleno Parque Natural Doñana (zona por excelência do Lince Ibérico), mas em vez de estradão agora seria AREIA até ao fim, as cãibras tornaram-se constantes e não tive alternativa, comecei a alternar a corrida com a caminhada. Quem mandavam eram as cãibras, correr só quando fosse possível.

Doñana Trail 2013-640

Precisava de ânimo, mas tinha medo de consultar o relógio, tinha a noção que devia ter perdido imenso tempo. Estava muito perto do K55 e segundo a minha espectativa devia estar com quase 6h de prova.

Parei. Tirei o relógio. Olhei para o mostrador. 4h15m de prova…

What!!! Parecia que tinha tomado uma dose de cafeina. Quase K55 em 4h15m, média superior a 12km/h.

Não admira que estivesse assim… tão fraco.

Foi a adrenalina que necessitava para fazer mais vinte quilómetros, até aos sessenta e três, não foi fácil conviver com aquele estado miserável.

Aos sessenta e cinco fiquei novo e dei-lhe mais um cheirinho, mas aos 70 quilometros as minhas amigas cãibras regressaram em todo o seu esplendor.

A espectativa de cruzar a meta, a voz entusiasmada do speaker vinda de longe e o calor de nuestros hermanos permitiram-me entrar em El Rocio (uma autêntica vila Mexicana) a correr e sem cãibras na companhia do Campeão Basco penta finisher do Ehumilak e Samuel Vallejo.

El Rocio

No marcador, 6h50m15s… ai se não fossem as cãibras 😉

Meta

Habitualmente não escrevo focado no “eu”, mas desta vez depois de muito ponderar, achei que o deveria fazer. Estive mais concentrado nas sensações do meu corpo do que propriamente no que me envolvia.

Fiquei em 25º lugar do meu escalão em 196 Atletas e em 43º da Geral em 569 atletas.

É a segunda prova que faço em Espanha se a Serra da Lousã é a minha Meca do Trail, Espanha é de longe o local mais emotivo para participar numa competição, seja ela qual for.

Não me admira que existam tantos Campeões do Mundo e tantas modalidades consagradas neste pais. Há um envolvimento muito grande de todos, onde nem sequer é necessário existir uma cultura desportiva, somente é necessário respeito e admiração por quem faz, o que quer que seja, por que razão que for.

Gracias e até breve.

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3 pensamentos sobre “Doñana Trail Marathon

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